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Jornalismo não levado à sério

Entrevista com o mochileiro Paulo Roberto da Silva

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      Paulo Roberto Felipe da Silva, 31, historiador, viaja pelo mundo levando apenas uma mochila desde os18 anos. Já esteve em diversos lugares, como o Vale do Condoriri, na Bolívia, e Machu Picchu, no Peru. Na entrevista a seguir, ele nos conta um pouco sobre suas aventuras e dá dicas para quem pretende pegar a estrada.

Paulo em Machu Picchu

Paulo em Machu Picchu

  Como surgiu a idéia de sai por aí viajando?                                             

Nunca gostei de me sentir preso às rotinas das agências de turismo. Gosto de liberdade total pra viajar, assim sendo, virei mochileiro aos 18 anos de idade.          

 Muitas pessoas saem para estrada com um ideal de busca, de encontrar-se, conhecer novas realidades. Qual sua principal motivação?                                                                                                                              

A minha principal motivação é a beleza natural, principalmente na América do Sul, além de conhecer novas culturas, adoro o intercâmbio cultural que os albergues proporcionam. Como sou andinista (andinismo é o montanhismo praticado nos Andes, na América do Sul), montanhas não faltam por aqui! Estamos perto de casa, nem há necessidade de viagem transoceânica, dá para mochilar e escalar para o resto da vida aqui.             

Aventureiros geralmente possuem grande identificação com obras da literatura, músicas e filmes que tratam de aventuras na estrada. Algum serviu como inspiração para você?                                

Na verdade não, comecei a mochilar muito cedo, não havia visto filmes sobre este tipo de viagem nem lido nada neste sentido. Sou Historiador e por isso só gosto de ler livros acadêmicos. Mas quanto aos filmes, esses sim, são minha grande paixão. Adoro filmes sobre mochilar: “A Praia”; “Na natureza selvagem”, “Diários de Motocicleta”…; porém nenhum deles me inspirou viagens porque eu já estava na estrada anos antes.

  O que sua família achou de ter um integrante andarilho?             

Transferi minha prática de turismo aventureiro mochileiro para minha própria vida.. Abandonei minha cidade natal, Rio de Janeiro, e me mudei pra São Paulo, em 2007. Vendi tudo que tinha e literalmente mochilei para São Paulo levando tudo que sobrou em três mochilas. Meu pai não gostou muito, hoje não fala mais comigo e não vejo minhas irmãs há dois anos, mas elas curtem muito minhas viagens, mesmo a distância.

Quais os lugares mais interessantes em que você já esteve? E os que pretende estar?                                                                                                     

Machu Picchu foi um marco em minha vida. Esperei por 15 anos para estar lá. Passei fome, frio, acampei na rua, peguei caronas, andei por dois dias na Bolívia, por conta de um bloqueio. Faria tudo de novo. O Vale do Condoriri também foi muito especial. Acabei de voltar de lá. Fui mochilando só para escalar e passei três dias incríveis nesse lugar maravilhoso e praticamente rupestre. Existem famílias que vivem lá, no vilarejo de Tuni a 4.400 msnm, vivendo da terra. Foi incrível. Pretendo visitar o Equador no próximo ano, pois lá pretendo escalar o Chimborazo, montanha mais alta do país. Também quero dar uma passada nas Ilhas Galápagos. Tenho tantos objetivos! (risos)

  Sobre as pessoas que você conheceu em suas andanças, quais as suas impressões, o que você aprendeu com elas?                                                                                                                                           

São todos aventureiros plenos! Conheci gente de pelo menos 35 países diferentes. Fiz muita amizade. Aprendi com eles o mesmo que aprenderam comigo: não vale a pena ficar em casa se lamentando do que não fez. Melhor é preparar a mochila e simplesmente ir! Para onde? Só o vento dirá! Essas amizades feitas na estrada tornaram-se duradouras? Pelo menos cinco ou seis, sim. Mantenho contato firme e constante com uma amiga da Noruega, duas americanas, dois amigos israelenses, que talvez me visitem aqui em São Paulo semana que vem, e pelo menos mais uns 30 brasileiros que conheci dentro ou fora do território nacional. Qual foi a viagem mais marcante? Por quê? Com certeza a mochilada de 2007, com o roteiro Bolívia – Peru – Chile – Bolívia. Foi absurdamente cultural, estressante, excitante, marcante, realizadora, memorável. Vi coisas que não imaginava existir, belezas naturais indescritíveis. Por isso repeti tudo esse ano (risos).

Em toda viagem há momentos desagradáveis. Quais foram seus piores momentos? E os melhores?                                                                        

O pior momento foi ter que caminhar dois dias em Cochabamba, na Bolívia, por conta do bloqueio que peguei por lá. Eu estava com um tersol horrível, parecia Rocky Balboa em “Rocky II, a revanche”. Caminhei com um desnível de 2000 msnm até 4.496 msnm em uma montanha em Cochabamba, foi tenso… Já os melhores foram todo o resto! Os passeios, principalmente a gastronomia. Acredito que mochilar, ou mesmo viajar em geral, trata-se de conhecer a cultura e a gastronomia do lugar visitado. E eu adoro comida diferente. Atingir meus objetivos também foi sensacional.

Muitos mochileiros dizem que a sensação de liberdade que essas andanças pelo mundo proporcionam, acabam mudando o ponto de vista, o objetivo de vida das pessoas. Você sentiu essa mudança?                                                                                                                            

Sim. Passei a observar a nossa América do Sul com olhos diferentes. É impressionante como o brasileiro é adorado fora do país, e visto como vizinho rico – e acredite, somos!-.  Fiquei fascinado ao ver que a simplicidade, a ausência de muita tecnologia e promiscuidade podem tornar um povo muito receptivo e até mesmo mais saudável. De uns anos pra cá parei de beber, procurei me alimentar melhor, e abdiquei de muitas coisas materiais que julgava necessárias, como televisão, hoje em dia não tenho uma em casa. Não sinto necessidade.

Como fica a vida após o retorno para casa?                                         

Nostálgica. Sinto saudades de cada minuto fora de casa. A estadia em casa se torna uma contagem regressiva para a próxima viagem. Como faço pelo menos duas mochiladas por mês dentro do território nacional para escalar, não fico muito frustrado. Aliás, faltam 10 meses para minha próxima incursão internacional.

  Confira as dicas do Paulo:

Muita gente acha que mochilar é muito perigoso, mas não é…

  •  Sempre leve mais dinheiro do que acha que vai precisar. E um cartão de crédito internacional também é bom;
  •  Não dê bandeira com dinheiro em volume nas mãos. Mantenha a grande quantidade em um money belt  (porta documentos e dinheiro para cintura, usado geralmente por baixo da roupa como medida de segurança em viagens ou no uso diário) e os trocados nos bolsos para despesas pequenas. Precisando pagar algo mais caro, peça pra ir ao banheiro antes de pagar e então terá privacidade para mexer no seu money belt;
  •  Sempre tenha consigo uma barraca, um isolante térmico e um saco de dormir. Crises sociais acontecem e se você for pego em uma delas, pelo menos não precisará dormir ao relento;
  •  Sempre combine o preço da corrida de táxi antes de entrar, irá evitar aborrecimentos assim;
  •  É interessante levar alguma comida brasileira para momentos de muita saudade. Hoje em dia há muita coisa pronta desidratada (comida liofilizada) ou enlatada (que não é muito bom porque significa muito peso), isso pode dar uma boa moral ao estômago em horas de baixo astral;
  •  Seja sempre cordial, dê gorjetas;
  •  Em casos de problemas de saúde, tenha consigo um kit médico básico para emergências;
  •  Aprenda o básico de comunicação da língua do país, mas não se preocupe em ficar perfeito, pois estando lá, você acaba aprendendo;
  •  Se passar por algum problema sério, não entre em pânico, seja racional e aja depois de pensar em uma solução. Entrar em colapso não irá resolver a sua situação, e poderá colocar em risco a integridade de algum amigo ou amiga que esteja contigo também.
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Written by June Smerth

06/06/2009 at 10:41 pm

2 Respostas

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  1. Olá!
    Tudo bem, estudo turismo e gastronomia estou me formando na metade do ano que vem e estou concluindo um roteiro para viajar pela America do sul, morro no Rio Grande do Sul, Bento Gonçalves gostaria de saber sua opinião no que fazer para sobreviver nessa aventura… tipo de trabalhos, se da para dormir em camping tranqüilo pelo caminho… msn barros.magno@hotmail.com

    Magno Barros

    Magno Barros

    15/08/2010 at 2:42 pm

  2. Olá!
    Tudo bem, estudo turismo e gastronomia estou me formando na metade do ano que vem e estou concluindo um roteiro para viajar pela america do sul, morro no Rio Grande do Sul, Bento Gonçalves gostaria de saber sua opinião no que fazer para sobreviver nessa aventura… tipo de trabalhos, se da para dormir em campins tranquilo pelo caminho… msn barros.magno@hotmail.com

    Magno Barros

    15/08/2010 at 2:41 pm


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